sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O sistema de recompensas

Esse país funciona na base da recompensa. O que eu acho ótimo, diga-se de passagem. Tudo aqui precisa ser conquistado. Desde pequenininho.
Explicando: Você só pode jogar video-game SE arrumar sua cama ( isso é meio óbvio, mas o "você" em questão costuma ser uma criança de 5 anos); você só pode assistir TV SE ajudar a tirar a mesa, você  só pode comer o cookie SE provar o brócolis, você só pode isso SE aquilo... Em geral, uma tarefa cumprida vem sempre recompensada por algo que a criança queira.
Pode parecer chantagem, MAS é recompensa.
Recompensa pelo esforço me parece algo muito justo.

O sistema de recompensas é vigente nas casas e  nas escolas nas mais variadas formas.
Uma forma muito comum é o uso de adesivos em pequenas tabelas. A criança ganha um adesivo para bons comportamentos, até completar um númer X definido pelos pais. Assim que o alvo é atingido, tem direito a um prêmio também definido pelos pais. Aqui em casa, são estrelinhas.  E tudo funciona na base da estrela.  Bom compotamento = ganha uma estrela. Mau comportamento= deixa de ganhar a estrela. Usei o método com o potty training ( terino para o uso do vaso e retirada das fraldas) da Laura - cada vez que usava o vasinho, ganhava uma estrela. A cada 5 estrelas - uma fileira completa - ela ganhava um pequeno prêmio (de um dólar ou menos). A cada tabela completa - 25 estrelas - um prêmio melhorzinho, como uma Barbie, por exemplo.

Nas escolas, todo bom comportamento é premiado, geralmente com adesivos.
A escola da Bia tem um sistema interessantíssimo chamado"classdojo",( tem uma opção do lado esquerdo que dá pra escolher português), em que os pais podem acessar o report semanal do comportamento da criança. São várias categorias, como trabalho em equipe, obediência `as regras e participação. Esse sistema é de adesivos virtuais e o mais interessante é que a própria criança se avalia e "se dá " o adesivo virtual no quadro, que na verdade é uma touch screen, seja o adesivo bom ou ruim. Por exemplo: a professora dá uma ordem e a criança não obedece. Na hora da pontuação, a professora pergunta `a criança se aquilo foi correto, a criança reflete e assume que não, e ela mesma "se dá" um adesivo negativo. Auto-avaliação - Eu acho isso fantástico!

No final da semana, as crianças têm acesso a uma "treasure box", uma caixa do tesouro com pequenos prêmios para escolher. Existem três níveis de prêmios, conforme a performance naquela semana. Quem teve mais de 80% de pontos positivos ganha os prêmios "melhorezinhos" ( Bia escolheu um par de  óculos escuros). Crianças com performances piores, têm acesso a prêmios inferiores. E aí, muita gente pode discordar. E eu até gostaria de ouvir a opinião dos discordantes, porque eu sou muito a favor.
Eu acho que o esforço tem que ser recompensado, que o bom comportamento tem que ser estimulado. São pequenos, eu sei, mas é de pequenino que se torce o pepino ( é esse mesmo, o ditado?)

O episódio dos óculos foi especificamente interessante. Quando cheguei para buscar a Bia, ela estava toda fashion com seus óculos novos, "rosa-choque", recém adquiridos da treasure box. Laura viu e quis um também. Expliquei que aqueles eram da Bia. A professora, que é uma graça de pessoa, notou e trouxe um pra Laura também. Quando a Laura recebeu, desandou a chorar. Eu fiquei sem saber o que estava acontecendo, mas ela se fez entender: "PURPLE IS NOT MY FAVORITE COLOR!Buáááá" Quase morri de vergonha! Mas, em meio aos meus "Sorry" pra professora, e "Laura não faça isso", "Agradeça!" e "blá, blá, blá", eis que a Bia tirou seus óculos e trocou com a Laura ( PINK tem sido a cor favorita da caçula nas últimas semanas...) A professora ficou tão impressionada que não hesitou - abraçou a Bia e deu mais dois adesivos virtuais no report card dela, pela generosidade com a irmãzinha. Reforço positivo, como dizem.

Na escola da Laura, outro exemplo. Ela andava chorando ao acordar do naptime. Chorando não. Berrando compulsivamente -  coisa que ela não faz com muita frequência, mas  quando "precisa", sabe fazer com maestria. Então, a professora resolveu dar um adesivo pra cada vez que ela acordasse sem chorar. E assim, ao acordar, a professora a relembrava do adesivo. Quando chorava, não ganhava. E assim, parou de chorar, pra poder ganhar os adesivos. Ao final de 5 adesivos, ganhou um ursinho de plástico da professora e uma fantasia de Ariel da mamãe ( exagerei no presente, mas eu ia comprar de qualquer jeito).

Na escola da Julia tem sistema de recompensas também. Alunos que tiram uma quantidade x de notas A na High School (serve para os outros níveis também) se formam com honras.   Recebem as honras nominalmente em seus diplomas e durante a cerimônia -  "summa cum laude", "magna cum lade". O esforço é recompensado. E eu acho isso muito positivo.

No Brasil, dizer que o aluno é esforçado é quase um xingamento. O chique é ser "inteligente", "ter facilidade", ser "brilhante'. É bem conhecida a frase de Einstein ( e nem sei se é dele mesmo ou se é filosofia de internet, mas está valendo):  "O sucesso* é 10% de inspiracão e 90% de transpiração."
Implementar o sistema de recompensas é privilegiar a transpiração. Isso é bom pra nossas crianças. Acho que transmite a mensagem de "depende de você", "você está no comando", "você pode ser/fazer melhor a cada dia". E acho que é isso que buscamos em todas as áreas da nossa vida. Melhor começar cedo.

Um amigo brasileiro que mora aqui deu a ideia pra sua irmã, que é professora em escola no Brasil. Ela não pôde colocar em prática. Não foi considerado "politicamente correto" pelos diretores da escola...

Há controvérsias sobre o assunto, eu sei, e espero ouvir posições diferentes nos comentários.

Acabei de ter uma ideia maravilhosa nesse sentido e corri pra escrever esse post,  antes que eu desista.
Vou montar uma tabela para estimular as meninas pequenas a experimentar novos sabores de alimentos. Meus 10% de inspiracão!

Enfim, a tabela consistirá em alimentos novos a serem experimentados. Vai seguir o mesmo conceito: a cada alimento experimentado, uma estrela. : ao final de 5 estrelas, um pequeno prêmio. Ao final de 25, um prêmio melhor. Não precisa gostar do alimento, nem "raspar" o prato. Só quero que experimentem. Vamos ver seu eu consigo seguir com os 90% de transpiração.

No final do desafio, conto pra vocês. Se eu conseguir, quero um prêmio pra mim também. Já até sei o que será...

9 comentários:

  1. Cris,
    eu e Ivan concordamos 100% com esta forma de recompensas. Acho justo também, você ganha se faz por merecer.
    Outro ponto que aborda este critério seria o "estimulo", a criança passa a ter estimulo para fazer as coisas, pois sabe que será premiada se fizer, claro corretamente. Isso faz parte da natureza do homem, quem não precisa de um estimulo para fazer as coisas???
    Adorei a parte dos óculos e olha a presença da professora foi imediata!!!
    Beijos flor e bom final de semana

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    1. Sem dúvida, Ana! Estímulo é sempre bom. Além do mais, estamos sempre tão prontos a punir o errado, por que não valorizamos também o que é certo??
      Abs
      Cris

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  2. Aqui no brazil, "nao funga" por causa do tal tabu. I approves it , esse é um dos fatores que a terra da liberdade funciona.

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    1. No Brasil, somos um pouco hipócritas. Não pode estimular, e também não pode punir ( tem escola que não pode reprovar aluno... onde já se viu?). A vida não funciona assim...
      Cristiane

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  3. Como aqui nos EUA a questão de quê você ganha proporcionalmente ao que você trabalhou é o espírito do país, esse tipo de sistema é bem apropriado. Por um lado as crianças vão dando valor as coisas, aprendem a se comportar e a lidar com benefícios a longo prazo (1 semana é longo prazo para crianças pequenas). Por outro lado, elas aprendem que vão sempre ganhar um prêmio (físico) para fazer as coisas certas. Pessoalmente, minha mãe fazia esse sistema de pontos em relação a escola. Média 10 a gente ganhava x reais, 9 x reais etc. Mas a gente não recebia o dinheiro, no final do ano, com o último boletim, somava-se o valor e poderíamos comprar um presente extra no Natal. Eu já era adolescente e isso nunca me prejudicou, e lembro bem que me esforçava bastante para tirar notas melhores e comprar um presentão pra mim.

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    1. Penso nisso. É tênue o limite entre estimular as crianças a fazerem boas escolhas e criar filhos extremamente focados na recompensa... Difícil, mas ainda assim, acho válido. Mesmo que não seja infalível, é um plano que tem mais prós do que contras ao meu ver.
      Penso que isso não prejudica o caráter do filho, desde que tenha muita dose de sabedoria, pra não virar chantagem pura.
      Que legal que você experimentou isso na sua infância/adolescência. Pode falar de carteirinha...
      Abraço
      Cris

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  4. Acho bom e, ao mesmo tempo, ruim esse sistema de recompensas. AS pessoas acabam fazendo não pela atitude em si, mas pelo o que ela vai ganhar. Algumas coisas servem, mas pra coisas que definem o caráter de uma criança, por exemplo, acho um pouco complicado.

    Kisu!

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  5. SIm, concordo. Temos que tomar muito cuidado pra não estimular esse tipo de comportamento - fazer o bem por algo em troca. Mas, pensa bem. Se fazem algo errado, são sempre punidas... se fazem algo certo, devem ser sempre recompensadas. Nem que seja com um abraço, um carinho, um HI-5, um "Good Job"/ Esse estímulo é muito necessário. Bjs!

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  6. O reforço positivo e uma sociedade baseada na meritocracia é o que torna os EUA um país exemplo em termos de educação e ciência. E reforço positivo, quando bem utilizado, está longe de ser só recompensa material.
    O problema é que, desde a sua colonização, o Brasil cresceu baseado em outra mentalidade e aqui, falar em meritocracia é crime. Sinto tristeza em dizer, mas pobre país rico é o nosso...

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