quarta-feira, 26 de março de 2014

Silêncio

Há quase três meses, não recebo uma ligação  do Brasil.
Uma ligação de todos os dias.
Meu telefone está em silêncio... Não o ouço tocar. Não ouço a voz mais presente da minha vida do outro lado da linha.
Silêncio.
Suas palavras eram meu pão diário, e faziam parte da minha rotina. 
Ora corriqueiras, triviais, falando de coisas simples; ora sábias e profundas, me ensinando o mais importante dessa vida. Sempre, uma doce voz, uma doce palavra...

"E agora, José? Sua doce palavra.... e agora?"

Ah, pai, como me fazem falta suas palavras...
E elas silenciaram para sempre no dia 14 de janeiro.
Ainda não consigo acreditar que o senhor não vai me ligar mais. Pra saber das meninas, perguntar do meu dia, se eu vi o que disse Bill O'Reilly na FoX News... Não vai me ligar pra saber se eu sei o que é "drift", "spare", "shed" ou qualquer outra palavra que o senhor sabia e eu não..., se eu ouvi o que o democrat so-and-so  falou - e que é um absurdo, por sinal! - se eu vi o último discurso do Rick Perry... 
Não vai me ligar pra saber com está o clima aqui e falar que ama o frio... Como vai o Christiano no novo hospital... 
Todo o  dia. Pai, todo o dia é muita coisa, sabe? E todo o dia faz seu silêncio doer mais. 
Não, pai, isto que escrevo não é um tributo `a sua vida. Isso ainda não consigo fazer... Isso é apenas uma satisfação que dou aos meus poucos e fiéis leitores. Pra que eles saibam o motivo do meu silêncio. Porque o meu silêncio é fruto do seu, como minha vida é fruto da sua.

Um tributo `a sua vida, pai, merece um blog inteiro. Ou melhor, um livro. Porque disso o senhor gostava muito. E foi um dos seus pedidos, né? Que não jogássemos fora seus livros. 

"E agora, José, sua biblioteca?... e agora?"

Está bem guardada, pai. Como estão bem guardadas suas palavras, seus ensinamentos e seus exemplos. Exemplo de homem que mais amou nessa vida.  Que me ensinou que AMOR é coisa que se demonstra e não coisa que se sente. Que sentir amor sem demonstrar é o maior erro dessa vida. AMOR sentido é AMOR vivido. E eu fui amada. E mais do que isso, eu me senti amada. E também minha família, meu marido, minhas filhas. 
Obrigada, pai. Porque o senhor amou em ações e não só em palavras.
Obrigada, pai, porque o seu silêncio não te apaga da minha vida. O seu silêncio me machuca, me maltrata. Mas o seu AMOR, esse o senhor deixou pra mim. 
E esse... não morre nunca.


"Mas, você não morre! Você é duro, José!"




"O amor jamais acaba." 
1 Co. 13.8


José Abdala Tuma Neto
* 24/11/1949
† 14/01/2014