quinta-feira, 16 de abril de 2015

Congratulations, you have MATCHED!!

O sumiço foi tão grande, que nem sei por onde começar.
Vou começar pelo começo.
Há aproximadamente 8 anos atrás, o sonho de exercer a Medicina nos Estados Unidos começou a tomar corpo. Aconteceu durante nossa visita ao Arizona e a Califórnia, em dezembro de 2007. Nessa ocasião, entramos pela primeira vez em um hospital americano com a visão de médicos ( eu já havia estado em um hospital em New Jersey uns 25 anos antes, mas como paciente). Na viagem de 2007, foi diferente. Então, a pergunta nos foi feita pela primeira vez: "Por que vocês não vêm pra cá?"
"Não, muito obrigado, temos a vida estabelecida no Brasil."  E  ponto final.
Fomos tocando a vida estabelecida que tínhamos. Fazendo planos, traçando metas, dando aulas. Pós-graduações, mestrados. Trabalhos publicados. Concursos. Foram nascendo mais filhos. Menos plantões.  Alguns cargos assumidos. Outros deixados. Alguns convênios dispensados.  Novas histórias.
Mas o eco daquela pergunta ficou repetindo lá dentro até 2010, mais ou menos. Neste período, algumas consultas informais em fóruns, chats e comunidades do Orkut, enquanto a gente ia levando a vida de um casal de médicos brasileiros com três filhas pra criar. Estávamos muito bem: bem sucedidos e bem estabelecidos, mas não muito satisfeitos - uma dose de mimimi a gente sempre tem. (Vem com o diploma).
 De repente, a pergunta não quis mais calar.  Por que, afinal, a gente não ia pra América? Porque era impossível, ora essa.
As consultas passaram então a ser mais intensas - a comunidade do Orkut ajudou muito. Naquela rede social - que teve sua maior popularidade no Brasil -  conheci gente que tinha conseguido. Médicos brasileiros! Gente como a gente. Quero dizer, uns bons anos mais novos. Solteiros. Recém-formados. Mas tinham conseguido. Estavam nos Estados Unidos como médicos!!
E foi assim, lendo a história de cada um deles, que buscamos inspiração para nossa história.
Fomos vendo gente como a Thaís, o Marcone, o Henrique, o Léo Batista, e tantos outros... Fomos vendo eles conseguirem!! Seus depoimentos nos deram força. A Arlete! Sábias palavras da Arlete.
O processo era muito burocrático. A faculdade deveria ser contactada ( depois de tantos anos!!) , nossos históricos, formulários, diplomas, traduções juramentadas... Form 183, Form 186, ECFMG, USMLE, tudo parecia tão confuso. Mas fomos criando coragem. E fazendo tudo step by step. Literally.
A decisão de vir foi sedimentando em nossos corações até se tornar algo calmo e possível. Não foi de supetão, não foi do dia pra noite.  As ideias foram saindo da cabeça, indo pro papel, saindo do papel e indo pra vida real.
Foi assim com muita vontade, um pouco de coragem e um tanto de medo que viemos. Tudo regado a muita oração - porque a gente não é forte e seguro o tempo todo.
Viemos com visto F para estudarmos em tempo integral para o que seria nosso objetivo final - o MATCH. Tiramos filhos da escola, deixamos empregos, fechamos consultório e desprendemos de muita coisa. Ficamos mais leves pra recomeçar.  E, de repente, nossa vida se resumia em nove malas.
(No dia 9 de abril de 2012 chegamos aqui e um pouco dessa história você pode conhecer lendo os posts dessa época).
O caminho foi curso de inglês ( Sim, precisava!)  e preparatório Kaplan para USMLE  presencial. Algumas portas tivemos que bater, fazer a nossa parte e fazer pesado! ( Deus ajuda quem cedo madruga...) Mas, outras se abriram, miraculosamente, com uma dose inquestionável de sobrenatural ("Aos seus amados, Ele dá enquanto dormem...") E foi assim que surgiu a Pesquisa no MD Anderson, o visto J1 e o fellowship na Universidade do Texas.
Há exatamente um mês, no dia 16 de março de 2015, recebemos o email que vislumbramos pela fé nos últimos 3 anos - "Congratulations, you have matched."


Essa é a cara de felicidade do futuro residente de Anestesia da University of Mississippi  Medical Center UMMC


Poucos sabem o peso e o significado dessa frase. Para os que já leram, you know what I'm talking about... Para os que ainda sonham, espero servir de estímulo.
Pra quem não sabe do que eu estou falando, não conseguirei explicar o inexplicável. É difícil - quase impossível - falar que essa alegria que não cabe no peito significa um passo pra trás. Um passo  ENORME pra trás. Pra se ter uma ideia,  no ano que  inicia em julho de 2015, ele será um PGY1 - um interno/ um R1... E estamos felizes!!!!
Sim, estamos celebrando nos EUA o que ele já conquistou há 19 anos no Brasil. Fará Residência de novo. Mas significa muito. É esse passo imenso pra trás que nos permite dar um passo maior ainda pra frente. E esse passo vai mudar a vida das minhas filhas.  Para isso deixamos tudo pra trás e embarcamos rumo ao desconhecido.
No estacionamento do supermercado, não seguramos as lágrimas. E choramos de felicidade. Não se engane, ainda temos muito chão pela frente. Novas histórias para serem escritas. Novos desafios. Mas essa foi definitivamente, a maior vitória dos últimos 3 anos. Talvez, a maior conquista de nossas vidas. E por isso, somos gratos. Somos conscientes da nossa força e das nossa fraquezas, não somos melhores que ninguém, mas também não somos piores. Teve  esforço, mas acima de tudo, teve Graça.

Jackson, There we go!


"Conheço as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém a pode fechar; tendo pouca força, guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome." Ap. 3:18