quinta-feira, 21 de abril de 2016

Residência Médica nos EUA - sonho, realidade ou pesadelo? PARTE 1

Parte 1

 Há tempos venho pensado em escrever um post sobre a Residência Médica nos Estados Unidos.  Acredito que só uma postagem vai ser pouco, mas tentarei resumir a nossa experiência.
Bom, antes de mais nada preciso informar a você que EU AINDA NÃO FIZ TODO O PROCESSO. Aliás, eu nem COMECEI O PROCESSO.  E não sei NEM SE VOU COMEÇAR UM DIA. Estou muito feliz sendo bela, recatada e do lar. Ha!
Então, continuando o disclosure: toda a informação aqui se refere ao meu marido lindo Christiano.
Sim, estou no mood do romance. Me julguem!
Enfim... vamos começar que o treco é complicado.

Primeiramente, a nossa situação é bem peculiar, devido ao nosso tempo de formado. Este é o primeiro ponto que nos diferencia da maioria dos candidatos. Enquanto residência médica é coisa pra recém-formado, nós já estamos nessa caminhada há muitos e muitos anos. Ele formado em 1996 e eu em 2000. Mas eu, você não conta, porque, lembra, ainda não fiz nadica de nada. Mas você vai ter que me aturar um pouco falando de mim, porque afinal o blog é meu, né?   me sinto um pouco médica ainda.
Simbora.

Pois bem, além de levemente "passados do ponto", nós também já temos residência médica no Brasil. Se você está no comecinho de todo o processo, lamento lhe informar que sua residência aqui não vale porcaria nenhuma quase nada. É preciso fazer tudo do comecinho como se você tivesse acabado de sair da facul, cheio de sonhos, cabelos pretos, sem rugas e tal. Isso significa que meus quatro anos de Clínica Médica e Hematologia/ Hemoterapia aqui não me permitem tocar nem em meio doente. Meu Mestrado não me permite tocar em meio doente. Meu doutorado ( que eu não tenho) e meus trabalhos publicados, também não.
- Ah, mas e só um fellow?

Esse é um assunto interessante. Todo o mundo que fez fellow aqui teve que necessariamente passar por todo o processo de licença médica. Se não passou pelo processo completo, ele não fez fellow. Fez um observer, com "hands in pockets" ou seja, só ficou olhando e ouvindo. A não ser que seja fellow de pesquisa, pra isso não precisa de provas.  Neguim Sujeito pode vir pra fazer pesquisa tranquilo. Research Fellow não precisa de steps.
Mas pra qualquer atuação médica,  ele (ou ela) precisa das provas E da residência médica.
Não é possível atuar como médico sem residência médica nos EUA. A exceção, que eu saiba, é a Radiologia, em que é possível fazer apenas um fellow de 3 anos ( a residência seria de 4) - mas mesmo assim, precisa de todas as provas.

Sem as provas, não tem conversa. Não tem atalho, não tem vias alternativas. Não adianta conhecer o chefe de Harvard. Você não vai pegar em um doente. Mas conhecer o chefe de Harvard vai ajudar lá na frente. Guarda ele aí por enquanto.

São quatro provas ao todo, os famosos steps - mas eles consideram três. Coisa de americano, eu acho.
 O Step 1 é o mais temido pois ele leva em conta os conhecimentos básicos de bioquímica, anatomia, embriologia, patologia, etc.  Para quem está longe disso há mais de 20 anos, é um pesadelo.  Para quem está perto, também, - o trem é chato mesmo. Mas tem que fazer, então a gente faz. A prova é o cróis, como se diz em Goiás. São 8 horas de duração, um verdadeiro massacre.  Meu marido estudou 9 meses 10 horas por dia. Ele passou. Tem gente que estuda menos e passa.   Tem gente que estuda mais e não passa. Cada um é cada um. Essa fase pode ser feita no Brasil em vários centros.
O Step 2 tem duas fases completamente diferentes, por isso, considero dois steps, mas oficialmente é um só.
O Step 2 CK (Clinical Knowledge) leva em conta os conhecimentos clínicos; Cirurgia, Clínica Médica, Pediatria, etc. Também 8 horas de prova e pode ser feita no Brasil.
O Step 2 CS (Clinical Skills) é uma prova prática com atores simulando quadros clínicos. Tem criança também. E tem ligação telefônica com a mãe passando o caso pra vc. Você tem que fazer anamnese, exame físico(menos no caso do tel, claro), diagnóstico, diagnóstico diferencial, etc. Tudo nos moldes made in USA.  Essa você só faz nos States. Não lembro quantas horas de prova, talvez umas 4 a 6 horas, não lembro. Tenho que perguntar meu marido depois. No momento ele está fazendo o ACLS pela terceira ou quarta vez. Ele passa todas as vezes, tá? Mas tem que fazer T-O-D-O  A-N-O. Mas isso é outro assunto.
Se você passar nesses steps, você validou o seu "diploma de médico".

Prontinho, você agora é "que nem que" o médico americano saindo da faculdade. Quase. Você é considerado um IMG - International Medical Graduate  -e isso você não pode mudar. É uma desvantagem porque alguns serviços não são IMG friendlyI. Mas, não é o fim do mundo. Tem muito lugar doidinho pra pegar um IMG. Se joga!

O Step 3 você tem até o final da Residência pra fazer, Meu maridinho lindo idolatrado salve salve já fez o dele. Porque ele fez o fellow antes da residência e para a maioria dos fellows o step 3 é pre-requisito. Acrescentado após re-leitura: o step três são 16 horas de prova, divididos em dois dias. Na época que ele fez, tinha que ser dias seguidos, mas, parece que isso mudou. O fellow antes da residência só é possível se vc já fez residência no Brasil. Eles aceitavam  isso até o ano passado para Anestesia. Parece que mudou e agora precisa de residência aqui.

Enfim, se voce tem as provas, não é garantia de sucesso absoluto. Agora o chefe de Harvard pode ser  BEM útil. O processo todo é feito pelo ERAS. Inclui as provas, cartas de recomendação,  carta do diretor da faculdade do Brasil e  personal statement, ( cartinha mostrando seus interesses, paixões, o tanto que vc é legal e tal) - americano ADORA personal statement. E outras coisas que não lembro. Nessa fase, as notas dos seus steps contam muito ( não é só passar, tem que passar bem passado). Mas também conta seus contatos, aquele telefonema, aquele QI, que aqui é muito valorizado e aberto. Não é um jeitinho, não é escondido, nem proibido. Muito pelo contrário, é super valorizado!!  Networking nesse país é tudo!

Importante salientar: passar em todas as provas não significa que você pode sair medicando o povo.
Passar nas provas apenas significa APENAS  ( sim, repeti mesmo) que você tem o DIREITO de concorrer a uma vaga de  uma residência médica ou fellow.
Entrar são outros 500. Mas toda a trajetória começa por aqui.

E pra você não achar que eu estou dificultando as coisas,  deixo as palavras do meu maridinho pra animar você:

"Se eu consegui, qualquer um consegue."
                                   Santos, Christiano

 Tão humilde, meu bichinho.


As informações detalhadas do processo de revalidação você encontra no site do Educational Comission for Foreign Medical Graduates ecfmg.org

As informações para a residência médica você encontra no site AAMC Electronic  Residency Application Service ERAS

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Para the love of my life, my sun and stars:  lembra desse post quando for comprar meu anel, tá?

Kahleesi

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Pontos

Aqui em casa as comidas tem pontos. Não aqueles para emagrecer. Os pontos vão para a criança que experimenta coisas diferentes - que no caso das minhas criaturas pode ser até purê de batata. Não precisa gostar, só experimentar e engolir uma vez. Pode até cuspir a segunda vez e não querer mais. Facim, facim.
Mas faz tempo que não faço a tal tabela, porque né, não andam experimentado nadica de nada.

Pois hoje a Laura deu piti pra não comer o que tinha na janta: arroz com aletria (macarraozinho), frango assado com batatas, brócolis com aspargos refogados e salada de alface com tomate. Lembrando que ela só precisaria comer o arroz e o frango. Estava dispensada da batata e de todas as verduras e legumes, já que vegetais podem causar uma reação fatal e deixar minhas filhas estateladas na hora. Então, não forço, para evitar tragédias fatais na hora das refeições. Não compensa.

Mas hoje a Laura não quis nem o arroz e nem o frango.  Pôs mil e um defeitos. Pois bem, coloquei aspargos, brócolis e batata no prato dela.
 - Escolhe. Qualquer um que você comer tá bom.
Ela resmungou, mas eu não dei bola. Milagrosamente, ela pegou o brócolis e comeu mais ou menos um décimo de grama da parte das folhinhas. Em micro-mordidas com cara de nojinho. Acrescentados de 18g de sal , mandou ver (te digo que não compensa).

Depois de orgulhosamente detonar seus 80mg de folha de brócolis, eis que Laura sobe na escrivaninha do home office pra pegar papel e caneta.
Tá lá toda concentrada fazendo uma tabela com umas 28 colunas e linhas. Disse que era pra marcar pontos.

- Que pontos, Laura?
- Ué, mamãe. Os pontos que eu ganhei por comer o brócolis.
- Laura, vc não comeu o brocólis.
- Comi sim, mamãe. Experimentei. O que vale é experimentar.
Verdade. Regra é regra. Computou o ponto na linha dela.

- Laura. que q tanto de ponto é esse aqui na sua linha?
- Bebi leite sem chocolate, mãe.
- Ok, merecido.
E tá lá a lista da menina só crescendo em questão de minutos.
O que me fez pensar.

- Laura, acho que este ponto do brócolis não vale.
- Vale sim, mãe.
- Vale não, Laura. Vc sempre comeu brócolis. Não é uma coisa nova.
- Mamãe, agora não tem jeito. Escrevi de caneta.

E o ponto ficou lá, junto com os outras coisas que experimentou ano passado. Tipo pudim.

Lista de pontos mais fail da vida.